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Lenda da fundação

A Lenda de Santa Clara-a-Nova

Segundo a lenda, Santa Clara-a-Nova nasceu à beira de uma lagoa. Os habitantes de uma povoação antiga, no sítio da Chaminé, quiseram construir uma igreja, mas todas as manhãs as ferramentas apareciam mudadas para junto da lagoa, guardadas por uma pombinha branca, até que uma voz vinda do céu mandou erguer ali a igreja e a aldeia com o nome de Santa Clara. É nesse lugar que hoje está a Igreja Matriz. Esta é a lenda da fundação da aldeia, publicada por António J. Gonçalves na Monografia da Vila de Almodôvar e recolhida nos anos 1990 pelo Arquivo Português de Lendas.

Ilustração da Lenda de Santa Clara-a-Nova em estilo de painel de azulejos azuis: a lagoa com juncos, as ferramentas na margem, a pombinha branca sob raios de luz, os aldeões espantados, a aldeia antiga em ruínas à esquerda e a igreja esboçada à direita
A lenda em estilo de painel de azulejos setecentista: a aldeia antiga em ruínas, a lagoa, as ferramentas mudadas, a pombinha branca sob a luz do céu e, ao fundo, a igreja por construir. Ilustração gerada por computador para esta página em 2026. Não é um painel existente nem um documento histórico.

Em resumo

  • Tipo: lenda de fundação, da família das lendas de "sítio disputado para uma igreja" (tipo 7060 do catálogo de Christiansen).
  • Lugar antigo: o sítio da Chaminé, onde a lenda diz que ainda há vestígios de casas desmoronadas.
  • Lugar escolhido: a margem de uma lagoa, onde hoje se ergue a Igreja Matriz de Santa Clara-a-Nova.
  • Sinais: uma pombinha branca que mudava as ferramentas e arrulhava noite e dia; os juncos que ainda brotam nas ruas da aldeia.
  • Fontes: Monografia da Vila de Almodôvar (Gonçalves, pp. 129-130), Arquivo Português de Lendas (APL 206) e Arquivos RTP (Antena 1, 2013).
  • Vídeo: a lenda contada em dois minutos, logo abaixo.

Ver a lenda

A lagoa, a pombinha branca e a voz do céu, em dois minutos

A Lenda de Santa Clara-a-Nova em vídeo, com narração em português, no canal de YouTube da aldeia. As imagens são ilustrações geradas por computador em 2026, não fotografias nem documentos históricos.

A lenda, tal como se conta

Versão publicada por António J. Gonçalves e recolhida pelo Arquivo Português de Lendas

No lugar onde hoje fica Santa Clara-a-Nova havia, em tempos muito antigos, uma lagoa. A aldeia ficava noutro sítio, que ainda hoje se chama Chaminé, e onde se dizem existir vestígios de casas desmoronadas.

Conta a lenda que os habitantes dessa aldeia decidiram construir ali uma igreja e deram início aos primeiros trabalhos. Aconteceu então um fenómeno que ficou na memória do povo: as ferramentas que os operários deixavam no local escolhido apareciam todas as manhãs noutro sítio, junto da lagoa, precisamente onde hoje se encontra a Igreja Matriz.

Junto das ferramentas mudadas estava sempre uma pombinha branca a arrulhar, com um som musical de encantar. Levavam as ferramentas de volta para a Chaminé, e elas tornavam a aparecer misteriosamente à beira da lagoa, com a pombinha a sobrevoar a água e as ferramentas, ali ficando noite e dia.

Isto durou muito tempo. O povo começou a atribuir a mudança das ferramentas à pombinha branca e misteriosa, que não deixava construir a igreja onde queriam, e andava calado e muito pensativo.

Rompeu então o silêncio uma voz vinda do céu, que dizia: "Aqui, neste lugar, quero que a igreja e a aldeia que se chama Santa Clara sejam construídas!"

Com muita fé, aquelas pessoas construíram ali a Igreja Matriz e, à sua volta, as casas da aldeia. Diz a lenda que, durante toda a construção, a pombinha branca vinha de manhã e à tarde saudar os obreiros com arrulhos cheios de ternura.

E ainda hoje, em algumas ruas da aldeia e junto das casas, aparecem de vez em quando alguns juncos. Os habitantes tomam-no como sinal de que ali existiu, de facto, uma lagoa.

Ler a lenda

Os motivos de uma lenda de fundação

A história de Santa Clara-a-Nova pertence a uma família de lendas muito espalhada pela Europa: a do sítio disputado para uma igreja. As pessoas escolhem um lugar; um sinal sobrenatural (ferramentas que mudam de sítio, materiais que desaparecem, um animal que insiste) escolhe outro; e a igreja acaba por se construir onde o sinal manda. O Arquivo Português de Lendas classifica a lenda da aldeia exatamente assim, no tipo 7060 do catálogo de Reidar Christiansen, "sítio disputado para uma igreja".

Três elementos dão a esta versão o seu sabor local. O primeiro é a Chaminé, o sítio da povoação antiga, que a lenda diz ainda ter vestígios de casas desmoronadas. O segundo é a lagoa, cuja memória o povo lê nos juncos que brotam nas ruas: um pormenor raro, em que a lenda aponta para uma prova que qualquer pessoa pode ir ver. O terceiro é a pombinha branca, que na iconografia cristã representa o Espírito Santo e aqui faz de mensageira, até a voz do céu dizer em palavras o que o pássaro já dizia em gestos.

A voz do céu nomeia a aldeia: "a aldeia que se chama Santa Clara". A lenda explica assim, de uma só vez, o lugar da igreja, o lugar das casas e o nome da terra. É isso que faz dela uma lenda de fundação, e não apenas uma história sobre uma igreja.

Lenda e história

O que se sabe, e o que não se sabe

Fachada da Igreja Paroquial de Santa Clara de Assis, em Santa Clara-a-Nova, o lugar onde a lenda situa a antiga lagoa
O lugar real, hoje: a Igreja Paroquial de Santa Clara de Assis, no Largo da Igreja. Segundo a lenda, foi aqui que a pombinha branca pousou as ferramentas, à beira da lagoa.

A lenda não é um documento histórico, e esta página não a trata como tal. A Igreja Paroquial de Santa Clara de Assis, no Largo da Igreja, foi provavelmente construída entre os séculos XVI e XVII, segundo o inventário do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, registo IPA.00030301). Não encontrámos documento sobre a sua fundação, sobre uma lagoa no lugar da aldeia ou sobre uma povoação anterior no sítio da Chaminé.

O que está documentado é a própria lenda. António J. Gonçalves publicou-a na Monografia da Vila de Almodôvar (edição da Associação Cultural e Desportiva da Juventude Almodovarense, sem data, pp. 129-130). O Arquivo Português de Lendas, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira da Universidade do Algarve, registou-a com o número 206, com recolha em Santa Clara-a-Nova nos anos 1990 e grau de crença "incerto". A 8 de janeiro de 2013, a Antena 1 contou-a no programa "Histórias Assim Mesmo", com locução e realização de Mafalda Lopes da Costa, hoje guardado nos Arquivos RTP.

Se conhece outra versão da lenda, sabe onde fica a Chaminé ou se lembra de juncos a nascer numa rua da aldeia, escreva-nos. É assim que estas histórias continuam vivas.

Contar-nos a sua versão

Ficha da lenda

Tipo
Lenda sagrada de fundação de igreja (Christiansen 7060, "sítio disputado para uma igreja")
Lugar
Santa Clara-a-Nova, concelho de Almodôvar, distrito de Beja
Lugares da lenda
Sítio da Chaminé (povoação antiga); margem da lagoa, hoje a Igreja Matriz
Recolha
Anos 1990 (século XX), em Santa Clara-a-Nova
Fonte escrita
António J. Gonçalves, Monografia da Vila de Almodôvar, ACD da Juventude Almodovarense, s/d, pp. 129-130
Registo
Arquivo Português de Lendas, APL 206 (Lendarium, Centro de Estudos Ataíde Oliveira)
Rádio
Antena 1, "Histórias Assim Mesmo", 8 de janeiro de 2013 (Arquivos RTP)
Vídeo
A Lenda de Santa Clara-a-Nova, 2 minutos, narração em português, canal de YouTube da aldeia @santa-clara-a-nova (outubro de 2026)
Crença
Incerta, segundo a classificação do arquivo

Perguntas frequentes

Qual é a lenda de Santa Clara-a-Nova?

É a lenda da fundação da aldeia. Os habitantes de uma povoação antiga, no sítio da Chaminé, quiseram construir uma igreja, mas as ferramentas apareciam todas as manhãs junto de uma lagoa, guardadas por uma pombinha branca. Uma voz vinda do céu mandou construir ali a igreja e a aldeia de Santa Clara. É onde hoje está a Igreja Matriz.

Onde ficava a aldeia antiga, segundo a lenda?

Num sítio chamado Chaminé, onde, diz a lenda, ainda existem vestígios de casas desmoronadas. A localização exata não está documentada nas fontes que consultámos. Se a conhece, escreva-nos.

O que significa a pombinha branca?

Na lenda é o sinal que escolhe o lugar: muda as ferramentas, arrulha noite e dia junto da lagoa e saúda os obreiros durante a construção. Na iconografia cristã a pomba branca representa o Espírito Santo, por isso a lenda a apresenta como mensageira da vontade divina, confirmada depois pela voz vinda do céu.

Houve mesmo uma lagoa em Santa Clara-a-Nova?

Não encontrámos registo documental ou geológico que o confirme. A própria lenda aponta a sua prova: os juncos, plantas de zonas húmidas, que de vez em quando brotam em ruas da aldeia e junto das casas, e que os habitantes tomam como sinal da antiga lagoa.

Onde posso ler, ouvir ou ver a lenda?

O texto está no Arquivo Português de Lendas (Lendarium, registo APL 206), a partir da Monografia da Vila de Almodôvar de António J. Gonçalves. A versão radiofónica, do programa "Histórias Assim Mesmo" da Antena 1 (8 de janeiro de 2013), está nos Arquivos RTP. As ligações estão no fim desta página. Para ver, há um vídeo de dois minutos nesta página e no canal de YouTube da aldeia, @santa-clara-a-nova.

Qual é a diferença entre esta lenda e a do Homem-Lagarto?

São as duas lendas da freguesia. A Lenda de Santa Clara-a-Nova explica a origem da aldeia e da igreja. A do Homem-Lagarto fala de um tesouro encantado nas Mesas do Castelinho, o sítio arqueológico a 2 km da aldeia, e teve consequências reais na destruição de 1986.

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Fontes

A lenda é citada a partir das fontes abaixo. A interpretação dos motivos e a comparação com a história documentada são nossas.