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A terra por baixo

A geografia de Santa Clara-a-Nova: a terra por baixo da aldeia

Santa Clara-a-Nova fica no lado oeste do concelho de Almodôvar, distrito de Beja, no Baixo Alentejo. A aldeia está pousada numa lomba, no degrau entre a planície do Alentejo, a norte, e a Serra do Caldeirão, a sul. Esta página, e o filme que a acompanha, contam porque é que a aldeia está onde está: antes das casas, a terra já tinha escolhido o lugar.

O chão de Santa Clara-a-Nova sem árvores nem casas, em modelo do terreno: rugas de vales e cristas até à serra
Santa Clara-a-Nova e a serra em volta, sem árvores nem casas: só a pele da terra. Imagem do filme "A terra por baixo".

Em resumo

  • Santa Clara-a-Nova assenta numa lomba larga, no degrau entre a planície do Alentejo, a norte, e a Serra do Caldeirão, a sul, no lado oeste do concelho de Almodôvar.
  • O modelo do terreno mostra a aldeia sobre a linha que separa duas águas: a chuva do lado sul vai para o Rio Mira, a do lado norte para a Ribeira de Mora.
  • O Rio Mira nasce na própria freguesia, na encosta norte da Serra do Caldeirão, 12,5 km a sul da aldeia, e desagua no Atlântico em Vila Nova de Milfontes.
  • Cada barranco tem duas faces: uma virada a norte, mais fresca, e outra virada a sul, onde o sol bate o dia inteiro.
  • À volta das casas há uma pequena ilha de terra quase plana, a das hortas e quintais, com um pé na serra e outro na planície.

O filme

A terra por baixo, em 4 minutos

Filme de 4 minutos, narração em português. Parte de Portugal inteiro, desce até Almodôvar e à aldeia, e depois tira as árvores e as casas para olhar só para o chão.

Visto de cima

Portugal, Almodôvar, Santa Clara-a-Nova

Santa Clara-a-Nova fica no lado oeste do concelho de Almodôvar, onde a planície do Alentejo começa a dobrar-se para a serra. A terra aqui não é toda da mesma altura, e a aldeia fica mesmo no degrau entre as duas metades.

Portugal, visto de cima. Lá em baixo, a sul, onde a planície do Alentejo começa a dobrar-se para a serra, há um concelho: Almodôvar. E no lado oeste de Almodôvar, onde a terra começa a enrugar-se, há uma aldeia pousada numa lomba. Santa Clara-a-Nova.

Para norte, a terra desce devagar até à planície, baixa e larga. Para sul, levanta-se, dobra a dobra, até à Serra do Caldeirão. Santa Clara-a-Nova fica mesmo no degrau entre as duas.

Daqui de cima parece simples: casas brancas, hortas, uma estrada, sobreiros espalhados. Mas a aldeia não está onde está por acaso. A terra escolheu o lugar primeiro.

Imagem de satélite do concelho de Almodôvar com o contorno da freguesia de Santa Clara-a-Nova, a oeste
O concelho de Almodôvar visto de cima, com o contorno da freguesia de Santa Clara-a-Nova no lado oeste. A planície a norte, a serra a sul.

Vestida e despida

Tire as árvores e as casas

Sem árvores nem casas, o chão de Santa Clara-a-Nova é feito de milhares de pequenos vales. É essa pele da terra, e não o que está em cima dela, que explica o lugar da aldeia.

Olhemos primeiro para a terra com tudo o que tem em cima. Cada árvore, cada casa, cada muro. É assim que a conhecemos: vestida.

Agora tiremos tudo. As árvores, as casas, as estradas. Fica só a pele da terra. E a pele da terra, aqui, é toda rugas. Milhares de pequenos vales, abertos pela água no xisto, gota a gota, durante mais tempo do que a memória alcança.

Santa Clara-a-Nova e os campos em volta vistos do ar em 2025, com casas, estradas e sobreiros
Vestida: Santa Clara-a-Nova como a conhecemos, com as casas, as estradas, as hortas e os sobreiros (2025).
O mesmo território sem vegetação nem casas, em modelo do terreno: vales e cristas finos como rugas
Despida: o mesmo chão sem árvores nem casas. A pele da terra é toda rugas.

As duas mãos

Cristas e vales

À volta de Santa Clara-a-Nova, as cristas e os vales encaixam uns nos outros como duas mãos entrelaçadas. A aldeia assenta numa das poucas costas largas e planas que essa rede deixou.

Vistas assim, as cristas e os vales encaixam uns nos outros como duas mãos entrelaçadas. Onde a terra sobe, onde a terra desce.

E se nos afastarmos, as mãos multiplicam-se: é uma rede inteira, de crista em crista, de vale em vale, até onde a vista alcança. A aldeia assenta numa das poucas costas largas e planas que o xisto deixou.

Cristas em laranja e vales em azul à volta de Santa Clara-a-Nova, encaixados como dedos
As duas mãos: as cristas a laranja, os vales a azul, encaixados uns nos outros à volta de Santa Clara-a-Nova.

A chuva e o rio

A linha que separa duas águas

O modelo do terreno mostra que Santa Clara-a-Nova fica sobre a linha que separa duas águas: a chuva que cai do lado sul vai para o Rio Mira, a que cai do lado norte segue pela Ribeira de Mora. E o Mira nasce na própria freguesia, 12,5 km a sul da aldeia.

Tudo o que aqui acontece começa com a chuva. Cada gota procura o vale mais próximo; os fios juntam-se, e fazem ribeiras.

O modelo do terreno mostra a aldeia em cima da linha que separa duas águas. A chuva que cai do lado sul vai para o Mira. A que cai do lado norte segue pela Ribeira de Mora, que mais adiante, a poente, também acaba no Mira.

E o Mira nasce aqui, nestas serras: na freguesia de Santa Clara-a-Nova, na encosta norte da Serra do Caldeirão, cerca de 2 km a norte do Pico do Mú e 12,5 km a sul da aldeia. Daqui vai ser rio até ao mar, em Vila Nova de Milfontes, 130 a 145 km depois, conforme a fonte.

Terreno claro com veias azuis: os caminhos que a chuva segue até às ribeiras perto de Santa Clara-a-Nova
Cada gota procura o vale mais próximo: as veias azuis são os caminhos da chuva até às ribeiras.
Manta de retalhos coloridos: cada cor é a terra que manda a chuva para a mesma ribeira, à volta de Santa Clara-a-Nova
Cada cor é a terra que manda a sua chuva para a mesma ribeira. Onde duas cores se tocam passa a linha que separa duas águas.
Imagem de satélite do sudoeste de Portugal com o curso do Rio Mira a azul, da serra até Vila Nova de Milfontes
O Rio Mira, da freguesia de Santa Clara-a-Nova até ao mar, em Vila Nova de Milfontes.

O pároco de 1758 já o escrevia, e os mapas oficiais confirmam: onde nasce o Rio Mira

A água, o sol e o vento

Longe da água que alaga, sempre à vista dela

Santa Clara-a-Nova ficou em cima, longe da água que alaga no inverno mas sempre à vista dela. À volta, cada barranco tem uma face fresca e uma face de sol, e a terra recortada abriga do vento.

Nem toda a terra fica à mesma distância da água. No fundo dos vales, a água passa todos os invernos. Nas lombas, lá em cima, a terra fica seca e segura. A aldeia ficou em cima: longe da água que alaga, mas sempre à vista dela.

Num terreno assim recortado, cada barranco tem duas faces. Uma virada a norte, mais fresca, onde as árvores aguentam o verão. Outra virada a sul, onde o sol bate o dia inteiro e só a esteva resiste. Quem aqui viveu sempre soube de que lado plantar.

O filme mostra o abrigo que a terra dá ao vento de noroeste. As lombas apanham-no de frente; os vales e as encostas viradas ao sol da manhã ficam ao abrigo. A cada cem metros, a terra oferece um abrigo novo.

Os fundos dos vales a azul e as lombas secas a escuro, perto de Santa Clara-a-Nova
No fundo dos vales a água passa todos os invernos; nas lombas a terra fica seca e segura.
Encostas coloridas conforme o lado para onde estão viradas, nos barrancos a sul de Santa Clara-a-Nova
As duas faces de cada barranco: as cores mudam conforme a encosta está virada a norte, a sul, a nascente ou a poente.
Lombas expostas a laranja e vales abrigados a verde, à volta de Santa Clara-a-Nova
O abrigo do vento: a laranja as lombas que o apanham de frente, a verde os vales e encostas abrigados.

A ilha

Com um pé na serra e outro na planície

Santa Clara-a-Nova está onde está porque à volta das casas há uma ilha de terra quase plana, a das hortas e quintais de sempre. Para oeste e para sul a terra cai em encostas íngremes; para nascente abre-se o planalto do cereal.

É por isso que a aldeia está onde está. À volta das casas há uma ilha de terra quase plana: as hortas e os quintais de sempre.

Para oeste e para sul, a terra cai em encostas íngremes, onde só cabe o mato e o montado. Para nascente, abre-se o planalto do cereal. Santa Clara-a-Nova fica na fronteira entre os dois mundos, com um pé na serra e outro na planície.

De perto, vê-se o que a terra deixou crescer em cima dela: as casas baixas, os quintais, os sobreiros e as azinheiras, cada um com a sua altura, cada um no seu lugar. Por baixo das casas, a terra continua a mesma: as rugas, a água, o sol e o vento. Foi ela que escolheu o lugar. As pessoas só tiveram de o reconhecer.

Uma mancha verde de terra plana à volta de Santa Clara-a-Nova, no meio de encostas íngremes a laranja
A ilha: a verde a terra quase plana à volta da aldeia, a laranja as encostas íngremes da serra.

A 2 km da aldeia, na mesma fronteira entre a serra e a planície, fica um povoado da Idade do Ferro: as Mesas do Castelinho

Ficha: a terra de Santa Clara-a-Nova

Onde fica
Lado oeste do concelho de Almodôvar, distrito de Beja, Baixo AlentejoFonte: Limites oficiais das freguesias, Direção-Geral do Território
Posição da aldeia
Numa lomba, no degrau entre a planície (a norte e a nascente) e a Serra do Caldeirão (a sul e a oeste)Fonte: Modelo do terreno, mostrado no filme
Para onde corre a chuva
Lado sul: Rio Mira. Lado norte: Ribeira de Mora, que depois se junta ao Mira a poenteFonte: Leitura do modelo do terreno, mostrada no filme
Nascente do Rio Mira
Na freguesia, encosta norte da Serra do Caldeirão, cerca de 2 km a norte do Pico do Mú e 12,5 km a sul da aldeiaFonte: Página Rio Mira (Memória Paroquial de 1758 e hidrografia oficial)
Foz do Rio Mira
Oceano Atlântico, em Vila Nova de Milfontes, 130 a 145 km depois da nascente, conforme a fonteFonte: Página Rio Mira
Abrigo do vento
Lombas expostas; vales e encostas viradas a nascente abrigadas. O filme toma o noroeste como direção do ventoFonte: Leitura do modelo do terreno, sem medição local
Mesas do Castelinho
Cerca de 2 km da aldeia, na mesma fronteira entre a serra e a planícieFonte: Página Mesas do Castelinho

Perguntas

Santa Clara-a-Nova fica na serra ou na planície?

Nas duas. Santa Clara-a-Nova, no concelho de Almodôvar, está numa lomba no degrau entre a planície do Alentejo, que se estende para norte e nascente, e a Serra do Caldeirão, que se levanta para sul e oeste. A aldeia tem um pé na serra e outro na planície.

Para onde corre a chuva que cai na aldeia?

O modelo do terreno mostra a aldeia sobre a linha que separa duas águas: a chuva que cai do lado sul vai para o Rio Mira, a que cai do lado norte segue pela Ribeira de Mora, que mais a poente também desagua no Mira.

Onde nasce o rio Mira?

Na freguesia de Santa Clara-a-Nova, concelho de Almodôvar, na encosta norte da Serra do Caldeirão, cerca de 2 km a norte do Pico do Mú e 12,5 km a sul da aldeia. Desagua no Atlântico em Vila Nova de Milfontes. A página Rio Mira junta o documento de 1758 e os mapas oficiais.

Porque é que a aldeia está numa lomba?

Porque é o lugar que a terra oferece: em cima, longe da água que alaga os vales no inverno mas sempre à vista dela, numa das poucas costas largas e planas da zona. À volta das casas há uma ilha de terra quase plana, a das hortas e quintais, rodeada de encostas íngremes.

O que se vê no filme "A terra por baixo"?

É um filme de 4 minutos, com narração em português. Parte de Portugal inteiro, desce até Almodôvar e a Santa Clara-a-Nova, tira as árvores e as casas e mostra o chão: as cristas e os vales, os caminhos da chuva, o Rio Mira até ao mar, as encostas de sol e de sombra, o abrigo do vento e a ilha de terra plana onde a aldeia assentou.

Onde fica Santa Clara-a-Nova?

No concelho de Almodôvar, distrito de Beja, no Baixo Alentejo, no lado oeste do concelho. A aldeia fica cerca de 15 km de Almodôvar e cerca de 70 km de Beja, entre a planície de Campos de Ourique e a Serra do Caldeirão.

Como se fez

O que é facto e o que é leitura

O modelo do terreno é feito a partir da informação pública da Direção-Geral do Território e das fotografias aéreas de 2025. O filme tira-lhe as árvores e as casas e mostra o chão em dez vistas, cada uma com uma pergunta: onde sobe, para onde corre a água, onde bate o sol, onde abriga do vento.

  1. O chão

    O modelo do terreno mostra a forma do chão sem nada em cima. As fotografias aéreas de 2025 mostram a terra vestida. Os limites do concelho e da freguesia são os oficiais.

  2. O que é facto

    Onde fica a aldeia, onde nasce o Rio Mira e onde desagua estão documentados e verificados na página Rio Mira. Reutilizamos esses números sem os recalcular.

  3. O que é leitura

    A linha que separa duas águas e o abrigo do vento são leituras do modelo do terreno, não medições no local. O filme toma o noroeste como direção do vento; não temos ainda uma medição da aldeia que o confirme.

  4. O que deixámos de fora

    Não damos a altitude da aldeia: as fontes que encontrámos não concordam, e preferimos não pôr um número errado. Também não afirmamos a rocha exata por baixo das casas.

Ver também

Fontes e créditos

O filme e esta página usam informação pública. As ligações abrem numa nova janela.

  1. Direção-Geral do Território, modelo do terreno de Portugal continental a 50 cm e fotografias aéreas de 2025
  2. Direção-Geral do Território, limites oficiais dos concelhos e freguesias, edição de 2025
  3. Esri World Imagery (Maxar, Earthstar Geographics), imagens de satélite
  4. OpenStreetMap, curso do Rio Mira (via 407393803)
  5. Memória Paroquial de Santa Clara-a-Nova, 1758, e a verificação da nascente do Mira: ver a página Rio Mira

Modelo do terreno a partir de dados LiDAR da Direção-Geral do Território (CC BY 4.0). Ortofotos 2025 © DGT. Imagens de satélite © Esri, Maxar, Earthstar Geographics. Limites administrativos da CAOP. Curso do Rio Mira © OpenStreetMap contributors (ODbL).